médica Dra. Isabel Martinez explica as causas e como tratar
Maiara emocionou o público ao falar abertamente sobre sua luta contra a alopecia androgenética durante sua participação no Domingão com Huck. Na atração, ela detalhou o impacto emocional da condição, que causa a perda genética de fios ao longo dos anos.
A médica Dra. Isabel Martinez explica que a alopecia androgenética é o tipo mais comum de alopecia e afeta tanto homens quanto mulheres. De acordo com ela, a causa é hereditária e depende da ação dos andrógenos — os hormônios masculinos, que também estão presentes nas mulheres.”De forma simplificada, podemos imaginar o receptor androgênico como uma fechadura que já existe dentro das células do folículo capilar. A di-hidrotestosterona (DHT) funciona como a chave. Quando essa chave se encaixa na fechadura, forma-se um complexo ativo que entra no núcleo da célula e modula a expressão de genes específicos. Esses genes não “destroem” o fio imediatamente, mas alteram o comportamento do folículo ao longo do tempo: encurtam a fase de crescimento (anágena), prolongam a fase de queda e reduzem progressivamente o tamanho do folículo”, esclarece.
“O resultado é a miniaturização folicular: fios que antes eram espessos e longos passam a nascer mais finos, curtos e menos pigmentados. Com a progressão, o fio pode se tornar quase imperceptível, deixando o couro cabeludo mais aparente.É um processo silencioso, gradual e biologicamente programado em folículos geneticamente suscetíveis — por isso a importância do diagnóstico precoce e da intervenção adequada”, completa.
Dra. Isabel afirma que afinamento característico da alopecia androgenética pode se iniciar após a puberdade e manifestar-se em diferentes fases da vida adulta. “Estudos demonstram que indivíduos com esse diagnóstico apresentam maior atividade da enzima 5-alfa-redutase e maior expressão do receptor androgênico nas áreas afetadas do couro cabeludo. A 5-alfa-redutase converte a testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), que, ao se ligar ao seu receptor, modula a expressão gênica no folículo piloso. Em folículos geneticamente suscetíveis, esse processo encurta a fase de crescimento e promove miniaturização progressiva, tornando os fios cada vez mais finos ao longo do tempo. Na mulher, a apresentação clínica difere do padrão masculino. Observa-se, na maioria dos casos, rarefação difusa na região do vértice e do topo do couro cabeludo, com preservação relativa da linha frontal. No climatério e na menopausa, o quadro pode se intensificar devido à queda estrogênica. Os estrogênios exercem papel modulador no ciclo capilar, prolongando a fase anágena. Com sua redução, há um aumento da influência relativa dos andrógenos sobre folículos geneticamente suscetíveis, favorecendo a progressão da miniaturização”.
A médica conta que atende pacientes com queda capilar há quase duas décadas, e uma das coisas que sempre chama atenção é que muitas mulheres demoram para procurar ajuda. “Elas não percebem que o cabelo está afinando, ou acham que “se a mãe tem cabelo fino, não tem o que fazer”. Isso não é verdade. A hereditariedade é um fator, sim, mas a expressão da doença é modulada por fatores hormonais, metabólicos e inflamatórios — e, na maioria dos casos, existe muito o que fazer”
Existem vários tipos de alopecia. Martinez explica que o primeiro passo é entender que elas se dividem em dois grandes grupos: as não cicatriciais, onde o folículo está preservado e há potencial de recuperação, e as cicatriciais, onde o folículo é destruído de forma permanente:
Alopecias não cicatriciais
A alopecia androgenética é a mais comum, com a miniaturização progressiva que descrevi. O eflúvio telógeno é outra causa muito frequente — uma queda difusa e aguda que aparece após estresse, cirurgias, infecções, parto, restrição alimentar. Pós-COVID, vimos muitos casos de eflúvio telógeno no consultório. A alopecia areata é uma doença autoimune, que provoca placas arredondadas sem cabelo. A alopecia por tração é causada por penteados, alongamentos e laces que exercem tensão contínua sobre o fio — e merece destaque, porque se mantida por muito tempo pode levar à perda permanente. E o eflúvio anágeno, mais comum em contextos de quimioterapia.
Alopecias cicatriciaisNesse grupo, temos o líquen plano pilar, a alopecia fibrosante frontal, a foliculite decalvante e o lúpus eritematoso cutâneo. Aqui, há um processo inflamatório que destrói irreversivelmente o folículo. Por isso, o diagnóstico precoce é absolutamente crucial — sem intervenção a tempo, a perda é definitiva.
Causas
Dra. Isabel revela que a queda capilar raramente tem uma causa isolada. “Mesmo na alopecia androgenética, que possui um componente genético, vários fatores podem desencadear, agravar ou acelerar o processo. Por mais que as pessoas achem simples, a queda de cabelo pode ser — e muitas vezes é — reflexo de algum distúrbio interno que precisa ser investigado e tratado”.
Ela lista as causas:
Genética: polimorfismos no gene do receptor androgênico e genes ligados à 5-alfa-redutase conferem a suscetibilidade. Mas genética é o gatilho, não a sentença — a expressão depende da interação com outros fatores.
Hormonal: desequilíbrios androgênicos, queda estrogênica na menopausa e climatério, síndrome dos ovários policísticos , alterações tireoidianas entre outras.Inflamatório: existe uma microinflamação perifolicular descrita na alopecia androgenética que contribui para a progressão da miniaturização.
Metabólico: resistência à insulina, deficiências nutricionais (ferro, vitamina D, zinco) e disfunções tireoidianas. Muitas pacientes minhas chegam com ferritina abaixo de 40 ng/mL, e isso sozinho já compromete a qualidade do ciclo capilar.
Estresse sistêmico: cirurgias, infecções graves, COVID-19, estresse emocional crônico e privilégio de sono podem precipitar ou piorar a queda.
Dano mecânico e químico: alisamentos, descolorações e tração crônica por alongamentos e laces podem causar alopecia de tração, que inicialmente é reversível mas, se mantida, pode se tornar permanente.
“E aqui faço um alerta importante: vejo muitas pacientes que tomam medicação indicada por uma amiga ou parente, sem procurar um profissional. Isso está errado e pode ser perigoso. Cada caso é único, cada organismo responde de forma diferente. O que funcionou para uma pessoa pode não funcionar — ou até prejudicar — outra. Precisamos preservar ao máximo o bulbo capilar, e isso exige diagnóstico correto e acompanhamento individualizado”
Um estudo de coorte multicêntrico publicado no Journal of the American Academy of Dermatology (Vidal et al., 2025), com quase 548 mil pacientes, demonstrou que o uso de agonistas do receptor de GLP-1 esteve associado a 1,64 vezes mais chance de alopecia androgenética e 1,76 vezes mais chance de eflúvio telógeno em 12 meses. Os mecanismos propostos incluem a perda de peso rápida com deficiências nutricionais, alterações na sinalização de insulina e IGF-1 no folículo, e possíveis efeitos diretos via receptores de GLP-1 já identificados no folículo capilar.
De acordo com Dra. Isabel Martinez, o tratamento depende do tipo de alopecia diagnosticada e precisa ser sempre individualizado. Ela afirma que não existe protocolo único que sirva para todas.
A médica esclarece que na alopecia androgenética feminina, os tratamentos com evidência científica consolidada incluem:
Minoxidil tópico — é a primeira linha de tratamento. Prolonga a fase de crescimento do fio e estimula a vascularização perifolicular. Possui alto nível de evidência e é aprovado pela FDA.
Minoxidil oral em baixa dose — tem uso crescente na prática clínica, com estudos observacionais e séries clínicas consistentes. Deve ser prescrito e monitorado por médico.
Antiandrogênicos em casos selecionados — a espironolactona é o mais utilizado na prática feminina. Finasterida e dutasterida têm uso controverso em mulheres, especialmente em idade fértil, e exigem avaliação médica criteriosa.
Terapias adjuvantes — laser de baixa intensidade (LLLT), microagulhamento associado à minoxidil e a outras substâncias, outros tipos de lasers, são recursos complementares que, combinados ao tratamento principal, podem potencializar os resultados, mas precisam-se de mais estudos .
Correção de fatores associados — investigar e corrigir deficiências nutricionais, avaliar função tireoidiana, rastrear resistência insulínica e investigar hiperandrogenismo. Sem corrigir o terreno biológico, nenhum tratamento capilar terá seu potencial máximo.
Sinais de alerta: quando procurar ajuda
Dra. Isabel afirma que a alopecia dá sinais antes de se tornar visível para os outros. O problema, segundo ela é que muitas mulheres normalizam esses sinais e perdem um tempo precioso. A médica listou alguns sinais:
Primeiro: você começou a ter que dar mais voltas no elástico de cabelo. Parece bobo, mas é um dos sinais mais precoces. Se antes o elástico dava duas voltas e agora precisa de três ou quatro, o volume do seu rabo de cavalo diminuiu — e isso significa que há menos fios ou fios mais finos.
Segundo: você sentiu queimação no couro cabeludo quando foi à praia. Isso acontece porque, quando há rarefação, o couro cabeludo fica mais exposto à radiação solar. Se antes o seu cabelo protegia essa área e agora o sol está queimando, é um sinal de que a densidade capilar diminuiu.
Terceiro: você começou a jogar o cabelo para o lado para disfarçar a linha de rarefação. Quando a mulher começa a mudar a risca, a arrumar o cabelo de um jeito diferente para esconder uma área, ela já está percebendo, mesmo que inconscientemente, que há uma perda ali. Esse comportamento de “disfarçar” é um alerta clínico para nós médicos.
Quarto: o rabo de cavalo está mais fino. Esse é talvez o sinal mais concreto que a mulher consegue perceber sozinha. A espessura do rabo de cavalo é um parâmetro real de densidade capilar. Se ele afinou, não ignore — procure um profissional.
“Esses sinais são o corpo pedindo atenção. Quanto mais cedo a mulher reconhece e procura ajuda, maior a chance de preservar os folículos e responder bem ao tratamento. Não espere a queda ficar óbvia para agir”, aconselha.
A alopecia não é apenas uma questão estética. Dra. Isabel Martinez diz que além do impacto na vida social, ela gera um impacto muito importante na vida profissional. Muitas das minhas pacientes me relatam que não se sentem confiantes para reuniões, apresentações, entrevistas de emprego. O cabelo faz parte da identidade da mulher, e quando ele falha, a segurança também falha. Sempre converso com as minhas pacientes que não importa a idade. Aqui no consultório, atendemos mulheres acima dos 50 anos que achavam que, por ter alopecia androgenética, não valia a pena tratar. Posso dizer com segurança: vale sim. Muitas mulheres melhoram significativamente. Precisamos nunca desistir”, diz.
O que aconteceu com a Maiara acontece com muitas mulheres — e por isso esse depoimento é tão importante: ele dá visibilidade a algo que afeta milhões de brasileiras. “Tenho muitas pacientes que começaram comigo na adolescência, e fomos controlando e tratando ao longo dos anos. Hoje são mulheres adultas que preservaram o seu cabelo e permanecem em acompanhamento. Passaram por diversas fases da vida — hormonais, de emagrecimento, de gestação, de estresse — mas sempre deixei claro: precisa acompanhar. Ter alopecia androgenética é um fator, mas muitas situações da vida podem agravar o quadro, e precisamos estar atentos para intervir a tempo.Empatia é fundamental. Mas ciência, diagnóstico precoce e acompanhamento profissional contínuo também são. Nenhuma mulher precisa enfrentar a alopecia sozinha”, conclui.



















