Temporada reuniu cerca de 3.200 alunos de cinco escolas públicas do Guará I e do Guará II, com oficinas e espetáculos interativos gratuitos
Uma música pode virar brincadeira; um verso de cordel, encontrar o ritmo do rap. Uma acrobacia pode despertar o movimento; uma história, ganhar vida no teatro. Entre cantigas de roda, histórias, percussão e personagens da cultura popular, cerca de 3.200 alunos de escolas públicas do Guará I e do Guará II participaram da temporada 2026 da Caravana da Criança. Ao completar 10 anos, o projeto levou oficinas e um espetáculo interativo às unidades de ensino, em uma programação gratuita realizada entre 28 de setembro e 1º de outubro, com a participação de estudantes do Ensino Fundamental I, professores e integrantes da comunidade escolar.
O percurso começou em 28 de setembro, na Escola Classe (EC) 03, pela manhã, e na EC 06, à tarde. No dia 29, a Caravana passou pela EC 08 no período matutino e pela EC 01 no vespertino. Em 30 de setembro, a EC 05 recebeu os artistas nos dois turnos. O encerramento, em 1º de outubro, marcou o retorno à EC 01, pela manhã, e à EC 08, à tarde. Ao todo, foram oito encontros em cinco escolas.
Em cada encontro, a ação socioeducativa, artística e cultural foi dividida em duas etapas. Primeiro, os artistas conduziram oficinas que apresentaram aos alunos diferentes linguagens e expressões da cultura brasileira. Na sequência, todos se reuniram para um espetáculo interativo, com espaço para cantar, brincar e participar da apresentação.
A Caravana reúne músicos e educadores com atuação no Brasil e também no exterior. Integram a equipe o violonista, cavaquinista e sociólogo Nelson Latif e o percussionista e professor Ismael Rattis, ambos idealizadores do projeto; a cantora e arte-educadora Isabella Rovo; o percussionista Sandro Alves; o compositor, violeiro e contador de histórias Victor Batista; e o escritor, contador de histórias, músico e bonequeiro O Desconhecido Davi e os acrobatas e palhaços Atawallpa Coello (Palhaço Trompetinho), cofundador da Cia. Circo Rebote, e Erika Mesquita (Palhaça Berinjela), da mesma companhia.
Com trajetórias ligadas à música, à cultura popular e à arte-educação, os integrantes compartilham seus repertórios nas oficinas e no espetáculo.
A Caravana é promovida pelo Ponto de Cultura Educação pela Arte, com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF). Ao longo das nove temporadas anteriores, o projeto alcançou milhares de crianças em escolas públicas da capital.
Brinquedos cantados e a cultura popular
O foco desta 10ª edição foram as brincadeiras tradicionais. O repertório reuniu brinquedos cantados, cantigas de roda e jogos corporais. A novidade foi a Burrinha, manifestação da cultura popular brasileira que une dança, música e teatro de rua, presente em festividades do Nordeste, como o Carnaval e os reisados.
Nesta temporada, a personagem ganhou vida pelas mãos de O Desconhecido Davi. Na pele do cavaleiro, ele conduziu brincadeiras e fez a ponte entre o universo dos personagens e a participação do público.
Na visão dos artistas do grupo, em um cotidiano cada vez mais atravessado pelas telas, a proposta é recuperar formas coletivas de brincar e aproximar diferentes gerações de práticas transmitidas oralmente. “A Caravana vem construindo esse lugar da brincadeira popular – do brinquedo. São práticas de tradição oral às quais muitas crianças hoje têm pouco acesso. Trazemos esse ‘como se brinca uma música’, mostrando que a cultura popular é viva e permite ao adulto e à criança entrarem juntos no jogo”, destaca Isabella.
Do cordel ao hip-hop: a mistura de linguagens
As oficinas abrangeram música, percussão, circo, literatura de cordel, contação de histórias e performance teatral. Organizados em grupos, os estudantes experimentaram essas linguagens antes de se reunirem para a apresentação coletiva.
Na atividade dedicada ao cordel, os artistas estabeleceram relações com o hip-hop e o rap, aproximando a tradição da rima de referências presentes no cotidiano dos alunos.
Na Escola Classe 05 do Guará, a supervisora pedagógica Danyela Martins Medeiros destacou a participação dos alunos nas oficinas de circo e percussão e o contato com a literatura, a dança, a música e os instrumentos. Para ela, a presença dessas manifestações na escola amplia o repertório cultural das crianças dos anos iniciais. “Foi muito enriquecedor para eles esse contato com a dança, com a música, com os instrumentos”, afirma.
Entre as atividades, a supervisora ressaltou a oficina de literatura de cordel, que recebeu avaliações positivas dos professores. A aproximação com o rap permitiu relacionar a cultura popular brasileira às rimas já conhecidas pelos estudantes. “Eu destaco aqui a literatura de cordel, foi uma oficina muito bem conduzida”, comenta Danyela.
Na segunda etapa do encontro, estudantes e professores acompanharam um espetáculo com artistas ligados ao Trio Baru, à Camerata Caipira e à Cia. Circo Rebote. O público foi convidado a cantar, brincar, responder aos artistas e interagir com os personagens. “Levamos aos estudantes nossos conhecimentos sobre a cultura brasileira utilizando variados gêneros artísticos. Buscamos estimular o lado criativo das crianças, para que essa experiência seja prazerosa e crie um registro emocional significativo, possibilitando transformações futuras em suas trajetórias individuais”, comenta o sociólogo e músico Nelson Latif, idealizador do projeto ao lado do educador e músico Ismael Rattis.
A arte como ferramenta pedagógica
A proposta também busca prolongar a experiência nas escolas para além dos encontros, oferecendo aos professores possibilidades de incorporar as atividades ao cotidiano da sala de aula.
“A palavra para mim é encantamento. É através da magia que a arte toca no campo mais sensível e imaginativo da criança, deixando ali uma semente plantada. Mas é algo fundamental também para o professor, que ganha novos repertórios e percebe a arte como um elemento pedagógico central e não apenas um momento de recreação”, ressalta Isabella.
Danyela também observa que as músicas populares brasileiras e as demais expressões apresentadas podem despertar nos estudantes a vontade de se tornarem artistas, dançarinos ou escritores. Na avaliação da supervisora, valorizar a arte e a cultura integra o trabalho educativo. “A educação precisa dessa arte, dessa cultura dentro das escolas”, afirma.
Além das possibilidades pedagógicas, o músico e educador Victor Batista destaca as memórias que os estudantes levam para casa e compartilham com os familiares. “A recepção das crianças é uma experiência que transforma tanto a eles quanto a nós. É alimentar a alma, plantar esperança no coração de pessoas que, muitas vezes, passam por dificuldades. É uma memória viva que a criança leva para casa, para os pais e para a vida toda”, pontua Victor.



















