Rede de franquias pretende ampliar presença em cidades onde o segmento ainda tem pouca oferta e aposta na integração entre lojas, digital e marcas globais
Quando começou a apostar no streetwear, Igor Moraes viu um mercado que ainda era pequeno no Brasil, mas que já tinha uma cultura própria. Hip hop, skate e música faziam parte do cotidiano de uma geração, enquanto o varejo ainda explorava pouco essa conexão. Foi nesse espaço que nasceu a estratégia da Kings, hoje com mais de 160 lojas e a maior rede de franquias de streetwear do país.
“Eu via o streetwear como linguagem, não como moda passageira. Hip hop, skate e música já moviam uma geração inteira, mas faltava um lugar que tratasse essa cultura com respeito e curadoria. O disco parou de vender, depois o CD, e eu fui para o tênis. A aposta foi: quem cria identidade a partir da cultura cria cliente para a vida toda. Hoje eu quero chegar além. Quero chegar a cidades que não possuem acesso. Isso é estratégia de venda, crescimento e comunidade”.
A expansão da Kings também trouxe desafios para a gestão. Moraes diz que alguns problemas surgiram justamente com o ritmo acelerado de crescimento e que a empresa precisou rever a forma de tomar decisões e organizar processos.
“Os erros típicos de quem cresce rápido: crescer sem processo, centralizar decisões em mim e demorar a profissionalizar a gestão. Hoje eu faria o contrário: estruturar antes de escalar, delegar cedo e medir tudo. Crescer sem sistema é só aumentar o tamanho do problema”.
O público que compra streetwear também mudou. Mais informado e acostumado a pesquisar antes de comprar, o consumidor passou a circular com mais facilidade entre os canais físico e digital.
“Mudou muito. O consumidor de hoje é mais informado, compara preços e quer autenticidade. Também compra pelo celular e pela loja, no mesmo dia. Por isso investimos em omnichannel, em collabs com marcas que ele ama (Disney, Warner, Marvel) e em uma comunicação que energiza. Isso sem perder a essência Kings”.
A disputa pelo consumidor ocorre ainda em um ambiente marcado pelo avanço de grandes plataformas internacionais de comércio eletrônico. A Kings não pretende entrar em uma competição baseada apenas em preço.
“Não dá para competir com Shein e Shopee em preço puro, e nem queremos. Nosso diferencial é o que eles não entregam: curadoria, marcas oficiais, experiência de loja, comunidade e atendimento. A loja física virou ponto de encontro e o digital completa a jornada”.
Para Moraes, ampliar a operação sem perder a relação com a cultura que deu origem à Kings é um dos principais desafios da marca.
“Autenticidade não se declara, se pratica. Mantemos a cultura viva com eventos, collabs e ativações que fazem sentido para a comunidade. Crescer é bom, mas cada ação passa por uma pergunta: isso é Kings de verdade?”
Essa preocupação também aparece na gestão de pessoas. Em uma empresa que conversa diretamente com um público jovem, a busca é por profissionais que tenham identificação com a cultura da marca.
“Lidero com propósito, clareza e proximidade. Gente criativa precisa de direção e liberdade ao mesmo tempo. Atraímos talentos porque a Kings é uma marca que as pessoas já admiram, e retemos dando espaço para criar e crescer dentro da cultura”.
A estratégia de marketing combina a construção de uma comunidade própria com o trabalho de influenciadores. Segundo Moraes, o perfil oficial da Kings no Instagram tem mais de 1,5 milhão de seguidores, enquanto os mais de 160 perfis da rede de franquias também ajudam a ampliar a comunicação.
“As duas coisas, mas com ordem de prioridade: comunidade primeiro. Temos mais de 1,5 milhão de seguidores no Instagram oficial, engajamento acima de 5% e mais de 160 perfis da rede franqueada ampliando a comunicação. Influenciador entra como acelerador, nunca como base. Quem aluga audiência perde tudo quando para de pagar”.
Para o futuro, a companhia pretende manter as franquias como parte importante da expansão, mas com maior integração entre seus diferentes canais e novas parcerias.
“Um ecossistema. Franquia segue como motor de crescimento, mas o futuro passa por integrar físico e digital, ampliar parcerias com marcas globais e fortalecer collabs e produtos próprios. Streetwear não morreu: está se reinventando, e a gente quer liderar essa reinvenção”.
Além de ampliar a rede, Moraes afirma que a intenção é chegar a cidades que ainda têm pouco acesso ao segmento. A estratégia, diz ele, combina a abertura de novos mercados com a formação de comunidades em torno da marca.
Ao lembrar o início da trajetória, o executivo resume o que diria ao próprio passado e a quem pretende começar um negócio de moda agora.
“Ao Igor de 18 anos: comece antes de estar pronto e cerque-se de gente melhor que você. Dinheiro falta, mas visão e disciplina você consegue construir. Para quem quer empreender em moda em 2026: não tente vender roupa, construa uma marca com comunidade. Produto se copia, cultura não”.



















