Ao longo da história, a humanidade aprendeu a enxergar Deus quase exclusivamente sob uma perspectiva masculina. Para a escritora, bruxa e pesquisadora das tradições ancestrais Tânia Gori, essa construção cultural acabou silenciando uma parte essencial da espiritualidade: o feminino sagrado.
Segundo ela, basta observar um dos trechos mais conhecidos do livro de Gênesis para perceber uma provocação pouco debatida. Se homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, a representação do divino não poderia estar restrita apenas ao masculino.
“O divino nunca pertenceu a um único gênero. Homem e mulher são expressões dessa mesma origem. O problema é que, ao longo dos séculos, fomos ensinados a reconhecer apenas uma dessas faces”, afirma.

Para Tânia Gori, a predominância da figura masculina como representação de Deus está diretamente ligada à formação das sociedades patriarcais, que transformaram o pai, o rei e o senhor nas principais imagens do sagrado. Nesse processo, o feminino não desapareceu, mas passou a ocupar espaços secundários e menos evidentes.
A pesquisadora destaca que a Deusa permaneceu presente em diversas tradições religiosas e espirituais ao redor do mundo. No Brasil, cita a devoção às inúmeras padroeiras, como Nossa Senhora de Montserrat, venerada em Salto (SP), símbolo de proteção, acolhimento e força materna. Em outras culturas, o feminino sagrado também se manifesta por meio de divindades como Kali, na Índia; Kuan Yin, no Oriente; Ísis, no Egito Antigo; Deméter, na Grécia; e Pachamama, cultuada pelos povos originários da América do Sul.
“A Deusa nunca deixou de existir. Ela apenas mudou de nome, de rosto e de linguagem”, explica.
Na avaliação de Tânia, o apagamento dessa representação produziu consequências que ultrapassam o campo religioso. Para ela, ao retirar o feminino do espaço do divino, muitas mulheres cresceram sem um arquétipo sagrado capaz de representar plenamente sua força, sabedoria, autonomia e capacidade criadora.
“Quando apenas o masculino ocupa o lugar do divino, o feminino passa a ser visto como secundário. Isso influencia não apenas a espiritualidade, mas também a cultura, a psicologia e a forma como muitas mulheres reconhecem seu próprio valor.”
A escritora ressalta que recuperar o feminino sagrado não significa substituir Deus pela Deusa nem questionar tradições religiosas, mas reconhecer que o equilíbrio espiritual sempre esteve na coexistência entre os princípios masculino e feminino.
“Resgatar a Deusa é compreender que o divino é inteiro. É reconhecer que razão e intuição, ação e acolhimento, força e sensibilidade são aspectos complementares da experiência humana.”
Para Tânia Gori, a Deusa continua presente nos templos antigos e nas igrejas modernas, nos diferentes nomes atribuídos ao sagrado e também na própria natureza humana. “Talvez a pergunta não seja onde está a Deusa, mas por que deixamos de reconhecê-la”, conclui.
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